Uma expedição na Mata Atlântica em Linhares está ajudando pesquisadores a investigar o potencial de fungos e bactérias encontrados na biodiversidade capixaba para o desenvolvimento de novos produtos. A iniciativa foi realizada na Reserva Natural Vale, no Norte do Espírito Santo, e faz parte de um projeto voltado à identificação de microrganismos que podem apresentar aplicações na indústria de cosméticos e no agronegócio.
Durante o trabalho de campo, uma equipe da empresa de biotecnologia Apoena Biotech coletou amostras de solo, plantas e água em diferentes ambientes da reserva. O material foi encaminhado para a sede da empresa, em Diadema, no estado de São Paulo, onde será submetido a processos de isolamento, preservação e identificação genética.
A proposta é descobrir organismos microscópicos capazes de produzir moléculas de interesse para pesquisas e, futuramente, para a fabricação de produtos. A iniciativa amplia o conhecimento sobre a biodiversidade da Mata Atlântica e também busca transformar informações encontradas na natureza em soluções voltadas a diferentes setores da economia.
Projeto já passou por outros biomas brasileiros
A expedição na Mata Atlântica em Linhares representa a quarta etapa de um projeto iniciado em 2022 pela Apoena Biotech. Antes de chegar ao Espírito Santo, os pesquisadores realizaram trabalhos de coleta em diferentes regiões brasileiras, incluindo a Amazônia, a Caatinga e Fernando de Noronha.
O objetivo do projeto é formar uma espécie de biblioteca genética de microrganismos encontrados nos diferentes biomas brasileiros. Com esse banco de dados, pesquisadores poderão estudar organismos já coletados sem que seja necessário realizar novas expedições sempre que surgir uma pesquisa relacionada a determinada espécie.
Segundo informações divulgadas pela empresa, o banco já reúne cerca de 1.200 microrganismos. Deste total, aproximadamente 400 já passaram por identificação genética e 55 estão sendo analisados em busca de moléculas que possam apresentar algum tipo de aplicação.
A estratégia permite que os pesquisadores tenham acesso a uma variedade maior de organismos e possam comparar suas características genéticas, facilitando a busca por substâncias com potencial para diferentes finalidades.
Microrganismos podem contribuir para a produção de cosméticos
Um dos campos de interesse da pesquisa é a indústria de cosméticos. Os cientistas procuram entender se determinadas propriedades atribuídas a plantas podem estar relacionadas não apenas às próprias espécies vegetais, mas também aos microrganismos que vivem associados a elas.
A investigação considera exemplos já conhecidos na biodiversidade brasileira, como o uso de substâncias relacionadas à copaíba e à andiroba em produtos cosméticos. A partir desse conhecimento, os pesquisadores procuram identificar se fungos ou bactérias presentes nessas plantas também produzem moléculas que possam ser aproveitadas pela indústria.
Outra frente do projeto avalia microrganismos associados a ambientes marinhos e organismos como corais. A expectativa é encontrar substâncias que possam apresentar características relacionadas à proteção contra a radiação ultravioleta, abrindo possibilidades para futuras pesquisas na área de fotoproteção.
Ainda não significa que um novo cosmético esteja pronto para chegar ao mercado. Antes disso, os microrganismos selecionados precisam passar por uma série de etapas de análise, testes e validações laboratoriais.
Solo e bromélias estão entre os ambientes investigados
Na Mata Atlântica de Linhares, os pesquisadores também voltaram a atenção para ambientes considerados importantes para a diversidade de microrganismos.
Além das amostras de solo, a equipe investigou a água acumulada entre as folhas de bromélias. Esses pequenos reservatórios naturais apresentam características específicas de temperatura, nutrientes e disponibilidade de água, criando condições que podem favorecer a presença de comunidades diferentes de microrganismos.
Para os pesquisadores, ambientes com condições particulares podem funcionar como verdadeiros laboratórios naturais. Os organismos que conseguem sobreviver nesses locais podem apresentar características interessantes para estudos relacionados à resistência ambiental.
A pesquisa também procura compreender a relação entre plantas e os microrganismos que vivem próximos ou associados a elas. Essa interação pode ajudar a explicar por que determinadas espécies conseguem sobreviver ou se desenvolver em ambientes com características específicas.
Pesquisa pode ajudar o agronegócio
Outro foco importante da expedição na Mata Atlântica em Linhares é a possibilidade de encontrar microrganismos que possam contribuir para o desenvolvimento de novos bioinsumos agrícolas.
Os bioinsumos são produtos obtidos a partir de organismos ou substâncias de origem biológica e podem ter diferentes aplicações no campo. Entre as possibilidades estão soluções relacionadas ao controle biológico e ao fortalecimento da capacidade das plantas de enfrentar determinadas condições ambientais.
A pesquisa na expedição na Mata Atlântica em Linhares realizada no Espírito Santo também faz parte de uma estratégia maior para entender como microrganismos associados às plantas podem ajudar espécies vegetais a lidar com situações de estresse.
Essa linha de investigação ganha importância diante de períodos de temperaturas elevadas, alterações no regime de chuvas e ocorrência de condições climáticas adversas que podem afetar a produção agrícola.
Enquanto a Mata Atlântica oferece um ambiente mais úmido e rico em matéria orgânica, outras etapas do projeto estão voltadas para regiões onde as plantas enfrentam condições de seca e calor intenso.
A expectativa é que organismos encontrados em plantas naturalmente adaptadas a esses ambientes possam, no futuro, contribuir para soluções capazes de aumentar a resistência das culturas agrícolas.
Inteligência artificial também será utilizada na pesquisa
A tecnologia é outro elemento presente no projeto. Antes das expedições, os pesquisadores analisam estudos científicos para selecionar plantas e ambientes que apresentem maior probabilidade de abrigar microrganismos de interesse.
Uma ferramenta de inteligência artificial em desenvolvimento deverá ajudar nesse processo, permitindo que os pesquisadores priorizem determinados alvos durante futuras coletas.
Depois que os microrganismos são isolados, começa uma nova etapa de investigação. O material genético é analisado e as sequências de DNA podem ser comparadas com informações disponíveis em bancos de dados científicos.
Os organismos considerados mais promissores seguem para análises mais aprofundadas. Também são realizadas simulações computacionais para tentar identificar moléculas que possam apresentar características de interesse.
Esse processo permite reduzir o tempo gasto na procura por determinados compostos e direcionar os testes laboratoriais para os microrganismos que apresentam maior potencial.
Coleta segue regras ambientais
A realização da expedição na Mata Atlântica em Linhares também envolve regras específicas relacionadas ao patrimônio genético brasileiro.
A coleta realizada na Reserva Natural Vale foi autorizada pelo Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade (Sisbio), administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
O acesso ao patrimônio genético coletado será registrado no Sistema Nacional de Gestão do Patrimônio Genético e do Conhecimento Tradicional Associado (SisGen), seguindo as normas previstas pela legislação brasileira.
Depois da etapa de identificação e seleção dos microrganismos, os organismos considerados mais promissores poderão avançar para testes e processos de desenvolvimento.
A empresa também trabalha com estruturas laboratoriais e biorreatores, que permitem estudar a produção desses microrganismos em maior escala. A intenção é acompanhar diferentes etapas, desde a descoberta de um organismo com potencial até pesquisas voltadas à produção de possíveis produtos.
A expedição na Mata Atlântica em Linhares, portanto, coloca a biodiversidade do Norte do Espírito Santo no centro de uma pesquisa que reúne conservação ambiental, biotecnologia e inovação. Embora os resultados comerciais ainda dependam de várias fases de estudos e testes, a iniciativa mostra como fungos e bactérias presentes em ambientes naturais podem se tornar importantes fontes de conhecimento para a ciência e para setores como agricultura e cosméticos.































