Conhecido carinhosamente nas redes sociais como Casão, chamado pelo público em geral de Casagrande, e tratado nos bastidores políticos apenas como Renato, o ex governador do Espírito Santo possui um nome de batismo composto que reflete bem a sua atual complexidade eleitoral: José Renato. Diante da sua recente e explícita declaração de apoio à reeleição do presidente da República no último final de semana, a relação entre Casagrande e Lula tomou o centro das atenções, despertando questionamentos profundos no cenário estadual.
Ao analisar essa conjuntura, poderíamos facilmente perguntar a ele, fazendo uma alusão direta ao célebre poema de Carlos Drummond de Andrade: “E agora, José?”. Ou, para sermos mais exatos com o contexto político capixaba: “E agora, José Renato?!?”. A frase proferida pelo ex-governador foi categórica e sem rodeios: “Meu candidato à Presidência é o Lula”. Essa tomada de posição, embora gere burburinho, faz total sentido e é, até certo ponto, uma movimentação política natural.
Do ponto de vista puramente partidário, a proximidade entre Casagrande e Lula reflete o alinhamento nacional entre o PSB (partido do ex-governador) e o PT. No entanto, essa declaração pública coloca a liderança estadual em uma verdadeira encruzilhada eleitoral. A grande dúvida que paira no ar é: até que ponto, desta vez, ele se engajará de verdade, dedicando tempo e capital político pessoalmente na campanha presidencial contra o avanço do bolsonarismo?
A pressão interna é gigantesca.
O Partido dos Trabalhadores cobra ações concretas. No Espírito Santo, a sigla prioriza de maneira absoluta a reeleição do senador Fabiano Contarato. Além disso, a chamada Federação Brasil da Esperança, composta por PT, PV e PCdoB, possui um candidato próprio ao cargo de governador: o deputado federal Helder Salomão. O detalhe que complica o xadrez eleitoral é que Salomão é adversário direto do atual governador Ricardo Ferraço (MDB), que, por sua vez, é o nome ativamente apoiado por Casagrande. Os desafios da união entre Casagrande e Lula ficam evidentes ao observarmos que tanto Helder quanto Contarato foram lançados oficialmente na convenção estadual do PT, realizada no tradicional Clube Álvares Cabral.
Apesar de o ex-governador não apoiar Helder Salomão para a chefia do Executivo estadual, o partido presidencial tende a apoiar, mesmo que de maneira informal, o retorno de Casagrande ao Senado Federal, orientando a militância a lhe conceder o segundo voto para o cargo. A relação histórica entre eles, no fim das contas, é positiva. Em 2022, o PT apoiou formalmente a reeleição de Casagrande, integrando sua coligação oficial em uma aliança tática fundamental para derrotar o bolsonarismo no Estado, que na época era fortemente encarnado pela figura de Carlos Manato. O PT, inclusive, fez parte da administração estadual, e o ex governador mantém velhos aliados na sigla, como os deputados estaduais João Coser e Iriny Lopes, atuais dirigentes máximos do partido no Espírito Santo.
Contudo, desta vez, o PT espera uma reciprocidade muito mais palpável. A base petista deseja que o elo entre Casagrande e Lula saia do papel e se transforme em participação real nos palanques e nas ruas. Eles querem evitar a postura passiva assumida por ele há quatro anos, quando disputava o terceiro mandato no Palácio Anchieta e preferiu não nacionalizar o debate local. O presidente estadual do PT, João Coser, verbalizou claramente essa forte expectativa logo após a convenção partidária, afirmando que muitos militantes apostam numa dobradinha informal entre o ex-governador e Contarato.
“Tem um desejo, mas precisamos ajustar uma conversa ainda com o Renato”, pontuou Coser. Ele destacou que espera que a atitude em relação à parceria de Casagrande e Lula seja diferente das eleições passadas. A deputada federal Jack Rocha corroborou com o sentimento, ressaltando que a declaração pública de voto foi um passo crucial, pois uma das grandes reivindicações locais era justamente ver Casagrande posicionado firmemente ao lado do palanque lulista. Apesar de coligados nacionalmente, o desencontro estadual é inevitável, visto que o PSB segue apoiando Ricardo Ferraço.

Relembrando o cenário de 2022
Casagrande limitou-se a manifestações puramente protocolares, focadas em entrevistas pontuais, sem pedir votos ativamente nas ruas ou na propaganda de TV. Por pura estratégia, no segundo turno daquele ano, ele acabou acolhendo o chamado “voto Casanaro” (eleitores que votavam nele e em Bolsonaro simultaneamente), estratégia que garantiu sua vitória contra Manato. Também estrategicamente, Lula sequer visitou o solo capixaba. Agora, a aliança Casagrande e Lula enfrenta um desafio de coerência ainda maior, especialmente considerando a forte rejeição do MDB de Ricardo Ferraço ao PT.
Ferraço é uma figura refratária ao petismo, chegando a assinar manifestos nacionais pedindo que seu partido não se coligasse com Lula. Pouco antes de assumir o governo, o PT rompeu com sua gestão. Como administrar essa dissonância? Para aumentar a sinuca de bico, existe a candidatura de Rose de Freitas (MDB) ao Senado, que divide espaço na mesma chapa. A coerência exigida pela militância coloca a amizade política de Casagrande e Lula à prova. Os petistas também têm cautela para não desrespeitar o Professor Carlos Fabian, candidato do PSol, que apoia os majoritários do PT localmente.
Na eleição estadual deste ano, os caminhos parecem traçados na mente do experiente político capixaba: seu candidato ao governo é Ferraço e sua meta pessoal é o Senado, marcando um retorno a Brasília dezesseis anos depois. Mas, quanto à corrida presidencial, restam as dúvidas que apenas o calor das campanhas poderá responder. Será que, na prática, a parceria entre Casagrande e Lula vai prosperar abertamente? Ficamos com os versos derradeiros do icônico poema de Drummond: “Você marcha, José! José, para onde?”. O futuro eleitoral do Espírito Santo aguarda ansiosamente por essa resposta










































