Era uma manhã de quarta-feira como outra qualquer em Eunápolis, no extremo sul da Bahia, quando viaturas da Polícia Civil pararam em frente a endereços que, até então, pareciam pertencer a uma vida comum. Mas naquele dia, 5 de agosto, uma advogada é alvo de uma operação que revelou uma trama bem mais complexa do que qualquer pessoa da vizinhança poderia imaginar.
Identificada como Brunay Cordeiro Santos, de apenas 28 anos, a advogada é alvo de investigação pelos crimes de participação em organização criminosa, falsidade ideológica e fraude processual. A ação recebeu o nome de Operação Chicana — um nome que, de certa forma, já entrega o que os investigadores dizem ter encontrado: um jogo de aparências para esconder o que não deveria existir.
Ao todo, cinco mandados de busca e apreensão foram cumpridos naquela manhã, em endereços ligados à profissional. As ordens partiram da Vara Criminal da Comarca de Itabela, cidade vizinha onde, segundo a polícia, atua a facção criminosa que está no centro de tudo isso — um grupo apontado como responsável por homicídios, tráfico de drogas e outros crimes que assombram a rotina de quem vive na região.
O que a Polícia Civil descobriu
Por trás da toga e do discurso de defesa dos direitos, a polícia enxergou outra história. Segundo as investigações, a advogada é alvo da operação porque teria integrado um esquema de fraudes documentais e processuais pensado, ponto a ponto, para beneficiar integrantes da organização criminosa.
Os documentos produzidos, de acordo com a corporação, tinham um único propósito: dar aparência de legalidade a algo que não era legal — a ocultação de patrimônio e a obtenção de vantagens ilícitas para membros da facção. Os investigadores também encontraram indícios de contratos simulados, criados sob medida para tentar convencer a Justiça de que tudo estava dentro das regras.
Durante as buscas, os policiais recolheram aparelhos eletrônicos e uma série de documentos, que agora seguem para perícia técnica. É nesses detalhes, muitas vezes escondidos em um celular ou em um papel guardado na gaveta certa, que a polícia espera encontrar o fio que leva a outros possíveis envolvidos.
Uma mãe recente no centro do processo
Há, porém, uma camada humana nessa história que a Justiça não pôde ignorar. A polícia chegou a pedir a prisão preventiva da advogada, mas o pedido foi negado. O motivo: ela é mãe de um bebê de apenas dois meses e está em período de amamentação. Diante disso, o juízo optou por medidas cautelares diversas da prisão, entre elas o uso de tornozeleira eletrônica.
É um lembrete de que, por trás de cada investigação, existem vidas reais, escolhas difíceis e circunstâncias que a lei também precisa pesar. Mesmo sendo alvo de acusações graves, a advogada segue sua rotina agora sob monitoramento — não atrás das grades, mas também não livre de todo.
A advogada que defendia a liberdade dos outros
Nas redes sociais, a imagem que ela construiu é bem diferente da que aparece nos autos do processo. Advogada criminalista, ela usa o slogan “Luto pela liberdade!” e descreve sua atuação como algo que vai “da defesa estratégica do flagrante à execução penal”, atendendo clientes em Eunápolis e em outras cidades do país. Ela também integrava a Comissão de Direito Criminal, Sistema Prisional e Segurança Pública da Subseção de Eunápolis da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
É esse contraste que mais chama atenção: alguém que dedicava a carreira a lutar pela liberdade de outras pessoas hoje é alvo justamente do tipo de investigação que costumava acompanhar do outro lado da mesa.
Um trabalho que uniu várias cidades
A Operação Chicana não foi conduzida por uma única delegacia isolada. Ela reuniu equipes da Delegacia Territorial de Itabela, responsável pela investigação, com apoio das Diretorias Regionais de Polícia do Interior Sul e Sudoeste, além das Coordenadorias Regionais de Eunápolis e Ilhéus, todas ligadas ao Departamento de Polícia do Interior (DEPIN).
Essa mobilização conjunta mostra que o caso em que a advogada é alvo das investigações ultrapassa os limites de Eunápolis. Ele conecta diferentes municípios do sul baiano, revelando que a facção sob investigação não age de forma isolada, mas dentro de uma rede que se espalha pela região.

O que vem a seguir
A Polícia Civil garante que o trabalho não parou por aí. Novas diligências devem acontecer nos próximos dias, conforme os documentos e aparelhos apreendidos forem analisados. A ideia é entender até onde vai a participação da advogada nesse esquema e se outras pessoas também devem responder pelo caso.
O que isso significa na prática?
O caso da advogada que é alvo da Operação Chicana nos mostra uma face do crime organizado que raramente aparece nas manchetes: o uso de profissionais respeitados, como advogados, para emprestar um verniz de legalidade a algo que nasceu ilegal. Quando alguém que deveria zelar pela Justiça vira suspeito de manipulá-la, o abalo vai além de um processo criminal — ele mexe com a confiança que a sociedade deposita em quem deveria protegê-la.
Para quem mora em Eunápolis e Itabela, fica o sinal de que a polícia está de olho nessas conexões silenciosas entre o crime e o mundo formal dos contratos e documentos. E para a classe jurídica, o episódio em que uma advogada é alvo de acusações tão sérias serve como um alerta: a linha entre defender alguém e proteger um crime pode ser mais tênue do que parece — e as consequências de cruzá-la, bem mais duras do que se imagina.










































