Ele está no bolso da calça, na mão enquanto se espera o ônibus, ou em cima da mesa do bar durante um happy hour com os amigos. Em qualquer uma dessas situações, um morador de Cariacica ou de Vitória corre hoje um risco maior do que a média nacional de ter o celular roubado ou furtado. Um novo levantamento acaba de confirmar o que muita gente já sente na pele: Cariacica e Vitória estão entre as 20 cidades brasileiras onde esse tipo de crime mais acontece.
Os dados são do mais recente Anuário Brasileiro de Segurança Pública, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma das pesquisas mais respeitadas do país quando o assunto é criminalidade. E o retrato que ele traz de Cariacica e Vitória, divulgado na última quinta-feira, é de dar um nó no estômago de quem depende do celular para trabalhar, se comunicar com a família ou simplesmente atravessar o dia.
Um empate perigoso
Se tem uma coisa que chama atenção nesse levantamento é a proximidade entre as duas cidades. Cariacica aparece na 12ª posição do ranking nacional, com uma taxa de 932,2 aparelhos roubados ou furtados a cada 100 mil habitantes. Vitória vem logo atrás, na 13ª colocação, com 930,8 casos pelo mesmo indicador. É quase um empate técnico — e isso não é coincidência. Cariacica e Vitória fazem parte da mesma região metropolitana, compartilham fluxo intenso de pessoas todos os dias e, infelizmente, também compartilham esse triste destaque nacional.
Para se ter ideia do tamanho do problema, o Espírito Santo como um todo contabilizou 17.637 celulares roubados ou furtados em 2025. Desses, 9.521 foram roubos — quando há ameaça ou violência contra a vítima — e 8.116 foram furtos, aqueles casos em que o aparelho simplesmente “some” da bolsa, do bolso ou da mesa, sem que a pessoa perceba na hora. É gente perdendo fotos de família, conversas de anos, senhas de banco e, muitas vezes, a sensação de segurança ao sair de casa.
A boa notícia dentro da má notícia
Nem tudo, porém, é desalento. Apesar de Cariacica e Vitória seguirem no topo do ranking nacional, o Espírito Santo registrou uma queda de 15,9% nesse tipo de crime em relação ao ano anterior — e essa redução não passou despercebida. Segundo a Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp), o estado foi o segundo do Brasil que mais conseguiu reduzir, proporcionalmente, os casos de roubo e furto de celular.
Parte desse resultado é creditada ao projeto Recupera, criado em julho de 2024 justamente para devolver aos donos os aparelhos recuperados pela polícia. Já são mais de 1.500 celulares que voltaram para as mãos de quem realmente é dono — histórias que, por trás dos números frios, representam alívio e um pouco de justiça para quem passou pelo susto de ver o telefone sumir.
Cariacica reage: câmeras, patrulha e menos assaltos nas ruas
A Prefeitura de Cariacica também entrou na conversa e trouxe dados que mostram um cenário de melhora na cidade. Segundo o município, os assaltos a pessoas em espaços públicos despencaram de 2.335 para 521 casos no período avaliado — uma queda e tanto. Os roubos dentro de ônibus caíram cerca de 80%, e os assaltos a estabelecimentos comerciais recuaram de 182 para apenas 22 ocorrências. Até os roubos a residências diminuíram, saindo de 20 casos para somente quatro.
Por trás desses números está a Guarda Civil Municipal, que mantém patrulhamento constante pela cidade com o apoio do Centro Integrado de Operações e Monitoramento (Ciom). São 1.156 câmeras espalhadas estrategicamente, funcionando como olhos extras para identificar suspeitos e guiar as equipes até o local certo, na hora certa.
Um retrato que se repete pelo Brasil
Ao olhar o cenário nacional, fica claro que Cariacica e Vitória não estão sozinhas nessa lista incômoda. As 20 cidades que lideram o ranking — a maioria delas capitais ou municípios de regiões metropolitanas, exatamente o perfil das duas cidades capixabas — concentram sozinhas cerca de 40% de todos os roubos e furtos de celular registrados no país inteiro. É um problema concentrado, urbano, e que atinge diretamente quem circula por ruas movimentadas, terminais de ônibus e pontos de grande fluxo de pessoas.
O estudo ainda aponta que o horário de maior risco para esse tipo de crime é o final da tarde, entrando pela noite — bem aquele momento em que a rotina de quem mora ou trabalha em Cariacica e Vitória está mais corrida, indo e voltando do trabalho ou pegando transporte público.
O que fica desse retrato
No fim das contas, o que esse levantamento mostra é um convite à atenção redobrada. Cariacica e Vitória mostraram que é possível melhorar — os números de assaltos em queda comprovam isso —, mas o caminho para sair do ranking nacional ainda é longo. Enquanto isso, especialistas reforçam a importância de medidas simples no dia a dia: evitar usar o celular distraidamente em locais movimentados, manter aplicativos de rastreamento ativados e ficar atento em horários de maior risco.
Para quem vive em Cariacica ou Vitória, a notícia serve como um lembrete de que, por trás da estatística fria, existe uma cidade inteira tentando equilibrar segurança e vida cotidiana — e que, aos poucos, parece estar no caminho certo.










































